quarta-feira, 18 de julho de 2012

Floripa. Outro Mundo.

A minha primeira impressão depois que as coisas se acalmaram foi a de que eu cheguei literalmente em outro mundo. 
Eu mal conseguia entender o que as pessoas diziam. Não compreendia o "idioma" falado em Floripa. Eu me concentrava ao máximo para tentar interpretar e... NADA. Não era possível para mim. 

Demorei aproximadamente seis meses para manter um diálogo aceitável com um vizinho da minha idade. Mas era só festa. Tudo era motivo para que eu tirasse muitos sarros das grandes diferenças para definir as mesmas coisas. E claro, também era alvo das mais diversas piadas pela forma de falar, e principalmente pelas expressões gauchescas. 

        Aula, primeiros contatos, praias.... 

Até que as aulas retornassem, e retornaram muito mais cedo do que eu estava habituado, aproveitávamos para ir à praia. Nosso interesse era o de conhecer todas as praias de Floripa, mas como são 42 só na ilha, não conseguimos visitar todas até o inicio do ano letivo daquele ano. 
Mas ainda assim conhecemos muitos lugares, dentre eles: Joaquina, Praia Mole, Campeche, Cacupé, Jurerê, Jurerê Internacional, Lagoa da Conceição, Barra da Lagoa, Daniela, Canasvieiras, Ponta das Canas, Ingleses, Armação. Nós preferíamos Jurerê Internacional, mas fomos muito mais vezes para Armação. Vai entender. Muitas vezes de ônibus, outras, de carona com amigas da minha mãe.
Na escola sofri o mesmo problema, entender o que meus colegas diziam e principalmente o que meus professores falavam. O ritmo das aulas também era bem diferente do que eu esperava muito mais lento, pois no RS enfrentei muitas greves de professores, greves longas, o que me fazia ter de correr no final do ano e ali não. Devido também ao modo de vida, das pessoas, tudo parecia mais leve por aqui.
Não posso afirmar que existiam diferenças de conteúdo, mas as coisas tornaram-se tranquilas para mim.

A escola era um tanto longe, em outro bairro, mas como eu ia pela manhã para a aula, e caminhando, o clima agradável durante todo o ano, colaborava com o aprendizado. Não me lembro de ter pegado um dia de chuva torrencial para ir até a escola, normalmente o dia era de sol.

Eu com minha natural inabilidade para conquistar amizades, comparecia mesmo somente para estudar, e não aparecia por lá em outro horário. Trabalhos em equipe eram um sufoco. Formar grupos para estudar fora do horário da aula, nem pensar. Para mim tudo tinha de ser resolvido ali, nas manhãs de aula, quando muito na biblioteca da própria escola.

Ainda bem que mudei bastante neste sentido depois de muitas dificuldades.

Como eu estava cursando a 8ª série na época, surgiu uma formatura para o final do ano. Não fui. Pensava que não estava me formando em nada ao terminar a 8ª, mas para meus colegas foi um grande evento. No fundo não tenho do que me queixar. Apesar de não ter nenhum contato e nem com quem tenha estudado ali. 

        Segundo grau e ETFSC 


Após o final do primeiro grau, minha mãe sempre insistiu muito que nós ao menos concluíssemos o segundo grau. Através da mesma amiga que recebeu minha mãe em Floripa, soubemos da ETFSC (Escola Técnica Federal de Santa Catarina).
A minha única preocupação seria a de estudar para passar no exame de seleção. Não estudei. Em minha primeira tentativa, fiz a prova tão rapidamente que quando deixei a sala para encontrar minha mãe, eles tinham acabado de estacionar o carro. Obviamente, não fui aprovado. A partir disto, minha única saída seria cursar um segundo grau noturno, aguardando o final do ano quando um novo processo seletivo fosse aberto.
Foi um desastre. Ali sim praticamente patinei o ano todo. Raramente havia semanas com todas as aulas. Ninguém tinha dedicação integral para o estudo, eu era no momento um dos poucos não repetentes, um dos mais novos da turma e o único que ainda não trabalhava. Além de tudo isso, me esquivava ao máximo das más influencias. A noite rolava de tudo dentro e fora dos portões da escola. Sempre que eu podia, procurava meu irmão nos intervalos e na hora de irmos embora, mas nem sempre conseguia encontrá-lo, devido as grandes diferenças nos horários das aulas.
Mas não desisti. Minha mãe insistiu. Fiz outro exame de seleção e ai sim, fui aprovado. Tive a oportunidade de cursar um segundo grau técnico, gratuito, de excelente qualidade me formando um Técnico em Mecânica, com especialização em projetos. Excetuando o estágio, não trabalhei efetivamente na área. Sobre meu estágio e tudo o que o envolveu, publicarei uma postagem específica.
Exemplo de CAD 3DEntrei bem deslocado, surpreso e admirado com a estrutura de tudo por lá. Amplas instalações, muitos alunos, muitas aulas, no primeiro dia fico sabendo que a tarde havia aula também. Passei quatro anos praticamente estudando em regime de internato. Pela manhã aulas curriculares, à tarde aulas de educação física duas vezes na semana, também à tarde mais dois dias específicos para aulas práticas e a noite cursos complementares em computação e CAD, mais especificamente MicroStation.

Ali aprendi bastante sobre trabalho em equipe, perdi muito de minha timidez, fiz vários trabalhos em equipe, até porque se não fosse assim, nunca teria me formado. Passava a semana inteira só pensando em estudar.
Assisti a uma infinidade de Telecursos 2000, a ponto de decorar as músicas. Acordava muito cedo, dormia muito tarde, sempre lendo estudando, realmente focado nisso. Na minha cabeça eu nunca estava suficientemente preparado para as provas, os exames finais, então aproveitava cada minuto do dia para estudar.
Deixei de ir muitas vezes à praia devido a isto. Não raro, trocava um passeio por umas horas de estudo. Tomei muitas caixas de cápsulas de guaraná em pó junto com café e Coca-Cola, a ponto de a noite meu edredom pular no ritmo dos batimentos cardíacos.
Mas eu tinha que estudar passar, terminar meu primeiro curso de qualidade.
Minha intenção era a de ir para a Itália e desenhar carros para a F1, para um estúdio como o Pininfarina ou talvez para Lamborghini. Grazie a Dio, não deu certo. 
Hoje vejo o quanto me fez bem ficar no Brasil. Caso minhas escolhas e minha opinião houvessem prevalecido, eu seria um homem triste e sem a esposa e filha lindas e abençoadas que Deus me deu.
Continuarei numa próxima postagem, até lá.

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