quarta-feira, 25 de julho de 2012

Meu Padrasto

Outro capítulo marcante em minha vida começou quando minha mãe passou a ter um relacionamento sério e duradouro (mais de cinco anos) com aquele que viria a se tornar meu padrasto. Não posso precisar as datas, mas vou detalhar alguns fatos.

        Como se Conheceram 

Minha mãe pouco depois de chegar a Floripa, solicitou que um garagista com o qual estava negociando um automóvel, levasse o carro de Caxias para Floripa.
Com ou sem segundas intenções, no dia em que uma amiga dela, com a qual viajamos bastante anteriormente, chegou por lá para visitar-nos, minha mãe solicitou que um vizinho (meu futuro padrasto) nos levasse até Laguna com nosso carro, usando o argumento que não conhecia bem o lugar, nem como chegar lá e que não estava um bom tempo sem dirigir...
Para mim o passeio não teve nada de mais. Conheci Laguna, seus pontos turísticos, o marco do Tratado de Tordesilhas, casa de Anita Garibaldi, estas coisas. Mal sabia eu que em pouco tempo, nossas vidas mudariam bastante. Este passeio foi em fevereiro ou março de 1991 acho.

        Novidades 

No mês de abril, meu padrasto estava de aniversário. Não sei como ela descobriu a data, mas preparou uma festa surpresa com presente e janta. A partir daí então os dois assumiram o relacionamento e ele então se mudou do apartamento e que morava, no mesmo prédio, para o nosso.
De início meu irmão teve um pouco mais de problemas para aceitar a ideia. Para mim parecia mais tranquilo, um pouco estranho, mas perfeitamente aceitável e normal.
Com o passar do tempo como não poderia ser diferente, eu fui mudando bastante. Passando de criança para adolescente na fase dos 13 para 14 anos e em muitas das minhas dificuldades e dúvidas, meu padrasto me ajudou muito.
Ele me ensinou a fazer a primeira barba, me ensinou a dirigir, insistiu muito para que eu estudasse para um concurso público, atento nas amizades que tínhamos, comprou algumas de nossas brigas, errou, acertou, mas o mais importante: estava sempre por perto, presente em tudo.
Como um enteado, não tenho nenhuma queixa.

        Relacionamento 

O relacionamento entre ele e minha mãe era excepcional. Eu posso afirmar sem nenhuma dúvida, que este foi o período mais feliz da vida dela. Eles estavam sempre bem. Nunca presenciamos nenhuma discussão ou desentendimento entre eles. Os dois viviam em clima de namoro. Saiam bastante: a pé, na chuva, para a praia de carro ou de ônibus, aprontavam como se fossem dois adolescentes.
Nós achávamos o máximo. Sempre exagerados, procuramos o maior Peru de Natal de todos, compramos um da exposição da Sadia, que não cabia no forno e teve de ser assado numa churrascaria. Outra vez foi uma garrafa de champanhe para o fim de ano que devia ter uns 10 litros. 
Ele perdia tudo, os óculos, o celular, a chave de casa, a do carro também, mas sempre dando risadas, muitas risadas. Eles se deram muito bem. Meu padrasto fez muito bem para minha mãe.

        Erros... 

Mas como nada é tão perfeito como gostaríamos, ele também errou.
A um dado momento de sua vida, após uma progressão profissional, ele foi morar em outra cidade. E num destes deslizes da vida, passou a ter outra vida, com outra mulher e família lá, mesmo mantendo ambas por um período.
Depois de algum tempo, tudo foi descoberto. Ele chorou. Minha mãe não aceitou mais que ele permanecesse lá em casa, eu e o meu irmão não tínhamos o que dizer, só o ouvimos confessar tudo e relatar a sua versão.
Minha mãe por fora estava bem. Pediu que não o culpássemos em nada. Meu irmão bem antes disso já desconfiava, na verdade tinha certeza de que ele tinha outra mulher, até atendeu ligações dela no celular de meu padrasto por engano. Mas não tinha como contar para ela. Foi melhor assim. Meu padrasto mesmo teve de abrir o jogo.
Após a saída dele do apartamento, a situação ficou crítica. Minha mãe caiu numa profunda depressão. Ficou por muitos dias, não quero exagerar ou errar, mas foi mais de um mês na cama. Chorava muito. Emagreceu bastante. Não abria a janela. Chamava-nos para conversar, mas não conseguíamos manter nenhum dialogo que não fosse sobre a situação pela qual ela estava passando. Culpou-se bastante. Culpou-se totalmente por tudo, passou a achar que deveria ter feito isto ou aquilo para que nada houvesse acontecido.
Pensou em se matar. Comprou revólver no morro, mas foi persuadida a desistir de fazer isto. Mas o estrago estava feito. 

Pouco tempo depois, descobriu um câncer de mama.
Eu não vou negar que cheguei a pensar e a falar com todas as letras que meu padrasto foi o culpado pelo câncer que vitimou minha mãe. 
Mas ela sempre nos pediu que não imputássemos culpa nenhuma a ele. Não foi fácil para mim. Ir visitá-la no hospital após a primeira cirurgia, acompanhar a própria mãe à quimioterapia, radioterapia, vê-la cambaleando, passando mal, tentar mantê-la animada, mesmo estando moído por dentro.
Ela tinha certeza que não escaparia desta.

        Presente de Deus

Pela graça de Deus, neste momento tão difícil de minha vida, ELE preparou e me entregou a maior benção de minha vida, minha atual esposa. Esta mulher que passou comigo este pedaço tão triste de minha vida e me deu a força necessária para suportar. Dou graças a Deus que no momento certo, trouxe para mim minha amada, que foi, é e será sempre uma grande fonte de força, prazer, alegria e bênçãos. 
Minha mãe me confidenciou no leito do hospital após a primeira cirurgia, que estava muito feliz por saber que eu tinha achado uma namorada que me fazia tão bem, e disse ela: "sei que você está bem encaminhado".
Minha mãe recuperou-se bem, dentro do previsto pelo médico. Passou pelo restante do tratamento. Eu acompanhei uma parte, antes de me mudar de cidade.

       Reconhecimento, Consideração e Agradecimentos 

Mas esta postagem é sobre meu padrasto, tive de descrever o que seguiu acima para entendimento da situação.
Eu preciso dizer que, mesmo antes de eu me converter, nunca culpei meu padrasto por nada.
Na minha cabeça nunca houve confusão. Minha mãe o perdoou. Deixou este mundo numa cama de hospital, em coma e no único momento em que esteve sozinha com ele.
Se ela que foi a única envolvida liberou o perdão, quem sou eu para atirar pedras nele.
Devo muito ao meu padrasto. E agradeço a Deus a oportunidade que tive de conviver com ele. Peço para Deus que sempre o abençoe.
Muito obrigado por tudo. Te amo.  

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